A toupeira Tita pinta um retrato dos seus amigos

Fábula - A Formiga Filomena e os animais da montanha

O Outono chegava ao fim e as formigas trabalhavam mais do que nunca, para que não lhes faltasse comida durante o Inverno.

Num dos formigueiros que existia na base de uma montanha, um grupo de formigas atarefadíssimas, afincadamente transportava sementes, folhas e restos de raízes. As formigas, apesar de andarem durante todo o ano a trabalhar percorrendo os trilhos que conheciam, nunca se afastavam muito dos formigueiros, pois tinham receio que os animais maiores que elas lhes fizessem mal. Por isso, não sabiam como era o resto da montanha…

Fabulas - Formiguas trabalhando

Contudo, num certo dia, quando mais um grupo se preparava para voltar a entrar, a Formiga Filomena pronta-para-qualquer-cena parou de repente, olhou para o topo da montanha e disse para si própria:
- Será que todos os animais que habitam esta montanha vivem em formigueiros? Como será a montanha pela encosta acima? – ficou a pensar, a pensar, até que resolveu deixar as suas companheiras e começar a subir por carreiros desconhecidos, em direcção ao alto.

Ainda estava na zona do matagal, pouco depois dos últimos ramos por onde normalmente passava com as outras formigas, quando ouviu:
- Tsssss, tsssss... o que é que esssta pequena formiguinha essstá aqui a fazer?

Fábulas - Serpente sabrina

A Formiga Filomena pronta-para-qualquer-cena olhou assustada para cima e percebeu que ali estava a maior serpente que alguma vez tinha visto. Escamas duras, olhos poderosos, língua comprida, boca enorme e dentes afiados. Com tamanho susto, a nossa amiga apenas se lembrou de dizer:
- Eu não quero fazer mal a ninguém, só queria passar por aqui para chegar ao topo da montanha.
Ao que a serpente respondeu:
- Estásss com muita sssorte por eu não gossstar de comer formigasss. Eu sssou a Ssserpente Sssabrina de-língua-venenosa-e-pele-fina, e aqui nessste matagal, entre pedrasss e essspinhosss, sssão asss ssserpentes que mandam e fazem o que querem. Fica sssabendo que sssó não te esssmago nessste momento porque não quero.

A Formiga Filomena suspirou de alívio, pois já tinha ouvido falar que as serpentes eram muito más, mas ainda antes de seguir o seu caminho, perguntou:
- Porque é que, sem eu te fazer mal, tu me farias a mim? E a Serpente Sabrina de-língua-venenosa-e-pele-fina respondeu:
- Aqui na terra dasss ssserpentes, todasss sssomosss muito desssconfiadasss. Vivemosss sssempre sssozinhasss e ssse vemosss alguém essstranho, antesss que nosss faça mal, nósss atacamosss primeiro. Venccce o mais forte. Aqui não confiamosss em ninguém e por issso atacamosss toda a gente.

A nossa formiguinha não ficou para ouvir mais e seguiu por um outro trilho, até porque estava decidida a chegar até ao topo da montanha. Mas não podia deixar de pensar: que triste deveria ser a vida das serpentes. Se não confiavam em ninguém, se atacavam todos os que viam, nunca poderiam conversar, divertir-se, nem fazer amigas. Sempre a querer fazer mal e desconfiando de todos; que horror!

Chegava agora à floresta. Era um lugar mais escuro, com árvores altas e muitos esconderijos entre elas. De repente, sentiu o chão a começar a tremer, a tremer, a tremer, quase como se aquela parte da montanha fosse mudar de sítio! O que estaria a acontecer?!

Eis quando, ao olhar novamente para cima, vê aparecer-lhe um focinho muito comprido, com um nariz enorme e dentes longos e grossos... e depois outro, e mais outro, e mais outro... até que uma voz muito grave lhe falou, meio a rosnar: - Eu sou o Lobo Lionel com-dentes-de-pedra-e-língua-de-fel e esta é a minha alcateia. O que é que uma formiguinha tão pequena anda a fazer na floresta, onde são os lobos que mandam e fazem o que querem? Por acaso estarás perdida? Uh! Uh! Uh! – e todos os outros lobos se riram da mesma forma assustadora.

Alcateia do Lobo Lionel e a Formiga Filomena

Mas a nossa amiga corajosa não teve receio. - Eu sou a Formiga Filomena pronta-para-qualquer-cena e apenas quero chegar ao topo da montanha. Poderiam deixar- me passar?

Os lobos ficaram algo espantados por um bichinho tão pequeno não ter medo deles. É que na terra dos lobos, todos viviam em alcateias, pois estavam sempre em lutas e esta era a única maneira de sobreviverem. Não era tão mau como as serpentes, pois dentro das alcateias os lobos eram amigos, mas se fossem de grupos diferentes, a luta era certa.

- O topo da montanha está muito longe. Não acredito que chegues lá, mas se queres continuar, também não vai ser a alcateia do Lobo Lionel com-dentes-de-pedra-e-língua-de- fel que te impedirá. Como não nos fazes mal e não serves para comer, também nada te faremos. Adeus.

E assim a nossa Formiga Filomena continuou a sua aventura, com a montanha a inclinar cada vez mais. Quando se afastava da zona de floresta e já entrava numa área da montanha em que só havia ervas altas e flores bonitas, escutou uma voz bem baixinho: - Olá formiguinha! Quem és tu? - Eu sou a Formiga Filomena pronta-para-qualquer-cena, e tu? - Eu sou a Lebre Luísa, de voz-doce-e-orelha-lisa, e sou tua amiga.

Lebre Luísa

E logo em seguida apareceram outras lebres aos pulos junto à lebre Luísa, prontas para brincarem juntas, e convidando também a nossa formiguinha a participar nos seus jogos. As lebres divertiam-se correndo montanha acima, pulando por entre os arbustos e as pedras, entre as ervas e as flores, todas ao mesmo tempo, sem nunca se zangarem ou aborrecerem. Eram diferentes dos lobos, pois todas eram amigas e talvez por isso não iam muito para a floresta, com receio que as alcateias destes lhes fizessem mal. Ainda assim, algumas, de vez em quando, iam até lá para conversar com lobos seus amigos, mas sabiam que se encontrassem a alcateia errada, teriam de fugir. Era muito melhor estar com as lebres do que com qualquer dos outros animais, mas a formiga Filomena sabia que tinha que continuar. Por isso, despediu-se das suas novas amigas e continuou montanha acima, agora já bem perto do topo.

As ervas e as flores começavam a desaparecer e agora somente havia erva rasteira, pedras e arbustos. O vento começava a soprar com mais força, trazendo consigo a frescura própria do alto das montanhas e a formiga estava já cansada. Tinha passado por serpentes no matagal, lobos na floresta, lebres nas zonas de erva alta e flores, mas agora com o vento e o frio, a nossa amiga experimentava grandes dificuldades.

Cabra Carolina

Foi quando, vinda de um só salto, surgiu uma cabra de pele clara e com barbicha longa, que segredou à formiga Filomena: - Eu sou a Cabra Carolina que-vive-entre-o-anjo-e-a- menina, e já ouvi falar de ti, Formiga Filomena pronta- para-qualquer-cena. Sei que queres ir até ao topo da montanha e já passaste por muitas aventuras para aqui chegares.

A formiguinha sorriu, contente por ter encontrado mais uma amiga. Mas esta era diferente de todos os outros. A serpente era má e só por acaso não lhe tinha feito mal. Os lobos não eram bons, mas como ela não lhes fez nada, também nada lhe fizeram. As lebres eram muito simpáticas e divertidas, e gostavam de ajudar até os que lhes poderiam fazer mal. Mas a cabra Carolina, parecia ser muito sábia. Foi então que a Cabra Carolina que-vive-entre-o-anjo-e-a- menina lhe explicou: - Nós, as cabras, vivemos no alto das montanhas e sabemos a língua do vento que tudo sabe, a quem ajudamos a fazer com que os animais possam viver melhor. Daqui vemos o que acontece na nossa montanha e sabemos como ajudar os outros. Damos grandes pulos para rapidamente irmos ter com as lebres, temos os nossos chifres para nos defendermos dos lobos e os nossos cascos duros para que as serpentes não nos façam mal. Sabemos que quiseste conhecer toda a montanha, e que não tiveste receio de enfrentar todos os bichos e sítios que estavam longe do teu formigueiro. Agarra-te então à minha barbicha, para que te possa mostrar o topo da montanha.

A formiguinha, num ápice recuperou o ânimo e agarrou-se com toda a força à barbicha muito longa da cabra Carolina, que com três pulos chegou à rocha mais alta de todas. A paisagem era magnífica e, de facto, daquele sítio podiam- se ver todos os bichos: as lebres a pular, as alcateias de lobos bem juntas e a fugirem umas das outras, as serpentes meio escondidas para nunca se verem e até avistava as suas amigas formigas. E ela que durante tanto tempo pensara que a montanha era pouco mais que o seu formigueiro! Afinal havia muito para ver. Que bom que tinha sido ter conseguido fazer esta viagem até ao topo.

- Todos aqueles que quiserem, conseguem aqui chegar – disse a cabra Carolina, como que adivinhando o que a sua pequena amiga pensava – todos aqueles que não desistem e não se detêm no matagal, na floresta, ou nas flores e na erva alta. Tu, porque nunca desististe, chegaste até aqui e por isso vais receber um prémio. - Um prémio?! – disse espantada a Formiga Filomena pronta-para-qualquer-cena – Mas que maior prémio poderei eu receber?! - Eu entregar-te-ei ao vento, que te levará até outra montanha, ainda mais bonita e com diferentes animais desta, para que também a possas conhecer. - e dito isto, a cabra Carolina que-vive-entre-o-anjo-e-a-menina sacudiu a sua barbicha, e deixou a nossa formiguinha ir com o vento, até uma outra montanha.

Cabra Carolina e Formiga Filomena no topo da montanha

Nunca desistas de subir a tua montanha e vais ver que conhecerás outros matagais, outras florestas ou outras zonas de erva alta e flores, diferentes e melhores daquela em que te encontras hoje.

Boa subida!

Textos © 2009 Hugo Guinote. Todos os direitos reservados. Não use ou reproduza sem permissão escrita.

Contacte o Autor

Hugo Batista e a Sua filha Clarinha

Hugo Batista e Guinote

veja aqui como adquirir o livro

encontre-nos no facebook
Obter o Firefox em Português:
Obter o Firefox
Obter o Acrobat Reader:
Obter o Acrobat Reader