A toupeira Tita pinta um retrato dos seus amigos

Fábula - A Águia, o Lince e os Esquilos

Pling! Pling! As gotas de água iam caindo lentamente sobre a vegetação que havia entre o rio e a montanha rochosa.

Estávamos no final do Inverno e pouco havia chovido, deixando as flores e plantas com muita sede. Assim como a chuva tinha faltado, também o vento não havia sido mais forte que uma suave brisa, não podendo levar para longe as sementes das árvores, para que a pequena floresta pudesse crescer. E entre a montanha rochosa e o rio viviam águias, linces e esquilos.

No alto da montanha era a Águia Alcina que-de-garra-afiada-o-bico-empina quem mais se via. Todos os dias deixava o seu ninho entre as rochas e como divertimento, descia para caçar os esquilos.

Por ser muito mais forte que os pequenos animais, a Águia Alcina que-de-garra-afiada-o-bico-empina, mesmo sem ter fome, mergulhava em voos rápidos até à floresta e perseguia os pobres esquilos por entre os ramos das árvores. Haah! Haah! - fazia ao saltar do topo dos penhascos e quando os alcançava junto ao solo, agarrava os esquilos com as suas longas garras e bico pontiagudo, e só quando estes choravam de dor os largava. Orgulhosa como era, julgava que por voar e assim ser mais rápida, podia fazer o que quisesse sem se importar em maltratar os outros animais.

Escondido por entre as ramagens de vegetação e as árvores da floresta, vivia o Lince Lourival de-patas-compridas-e-miar-gutural, sempre à espera de encontrar um dos esquilos, para os aborrecer.

Apesar de não os atacar como fazia a Águia Alcina, o Lince Lourival de-patas-compridas-e-miar-gutural, sempre que via um dos esquilos, ficava a andar atrás dele até se cansar. Ssss! Grrr! – assim assustava os esquilos sempre que saía do seu abrigo junto ao solo, aborrecendo-os quer por serem muito pequenos, quer por viverem em ninhos. – Vocês vivem na floresta mas fazem ninhos como se fossem águias?! – perguntava, em tom gozão, o Lince Lourival. Orgulhoso como era, julgava que por ser maior e correr mais depressa, podia fazer o que quisesse sem se importar em maltratar os outros animais.

Mas apesar dos ataques da Águia Alcina e dos aborrecimentos do Lince Lourival, os Esquilos, com o seu bom coração, toleravam ambos. Afáveis e doces, viviam mais preocupados em encontrar comida, limpar os seus ninhos no topo das árvores e em cuidar da floresta. Na verdade, os esquilos sentiam ser muito importante cumprirem com a vontade do vento e do rio. Por isso, quando saltavam entre os ramos, procuravam espalhar por todas flores e plantas as gotas de água que salpicavam do rio junto à margem, e as sementes que as árvores iam libertando e o vento não tinha levado para mais longe… e havia muito a fazer naquele ano.

Os esquilos eram, por isso, obedientes ao que o vento e o rio queriam, e pacientes com o que a Águia Alcina e o Lince Lourival lhes iam fazendo.

No Inverno seguinte, porém, o vento e o rio que rodeavam a floresta, aborrecidos com o que a Águia e o Lince tinham feito aos esquilos, resolveram voltar com mais força. Certo dia, o vento começou a soprar forte no alto da montanha rochosa. Com o passar das horas, as pedras da montanha começaram a rolar e os escassos arbustos não se conseguiam agarrar à terra.

A Águia Alcina que-de-garra-afiada-o-bico-empina percebeu, então, que de nada lhe valia ser mais forte que os esquilos, pois o vento tinha muito mais força que todas as águias da montanha juntas. E assim, saltou para a rocha mais alta do topo para fugir à tempestade e olhando para trás ainda viu o seu ninho rolar encosta abaixo.

No dia seguinte, foi a vez do rio trazer das fontes quanta água tinha e deixá-la correr. Com o passar das horas as águas surgiram com tanta força, tanta força, que passaram por cima das margens e inundaram a floresta.

O Lince Lourival de-patas-compridas-e-miar-gutural percebeu que afinal de nada lhe valia ser maior e correr mais depressa que os esquilos, e teve mesmo que trepar pelas árvores que resistiam à enchente. Acabou por parar bem junto aos ninhos dos seus vizinhos, que no topo nada sofreram com as águas da enchente, ao contrário dos abrigos dos linces, que ficaram destruídos. A Águia Alcina e o Lince Lourival compreenderam no fim, que o orgulho e a forma como eram maus para os esquilos, os tinha feito perder o que tinham.

Depois desta lição, as águias passaram a construir vários ninhos, não fosse vir outra tempestade e à cautela, em alguns sítios, deixaram mesmo de caçar esquilos. Quanto aos linces, nunca mais quiseram aborrecer os seus amigos da floresta e por isso passaram a deixá-los sossegados durante todo o dia, passando a sair dos seus abrigos só pela noite.

Ainda hoje, como agradecimento, de vez em quando o vento sopra por entre os ramos, como o som de uma flauta, e o rio deixa que as suas gotas saltitem nos troncos e folhagens junto às margens, imitando a música da harpa. É por isso que os esquilos gostam tanto destes sons.

Brinca sempre sem magoar os teus amigos!

Textos © 2009 Hugo Guinote. Todos os direitos reservados. Não use ou reproduza sem permissão escrita.

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